JORNAL ONLINE-REGISTO ERC Nº 125301 - DIRECTOR : LUIS PEREIRA

O Tua é o mais belo rio que corre pela minha aldeia

LUIS PEREIRA , É autor de mais de uma dezena de artigos científicos e de várias publicações em livro sobre a temática do património. Exerce a escrita jornalística frequentemente desde os tempos de estudante universitário, como complemento cívico e da sua acção cultural. Dirigiu a revista literária Íncubo (Porto:1992) e é actualmente director e editor do Notícias do Nordeste

NN - publicado Domingo, Agosto 03, 2008

            


Rio Tua- Veja o Vídeo
Talvez haja quem não compreenda a importância sentimental de um rio. Eu vivi entre três e quero que a minha alma ribeira não seja adulterada. Quem não compreende os rios não compreende a paisagem e o seu todo da geografia humana. Ainda ninguém me conseguiu explicar o porquê da necessidade da Barragem de Foz Tua. Mas mesmo que me expliquem, eu jamais o compreenderei.

Os rios formam as pessoas, assim mesmo, formam-nos desde criança com os sons, as lendas, os bichos e com os arvoredos que lhe adornam as margens. Quem sentir um rio, sente o significado minúsculo de uma parede de xisto, mas sente-a como a força gigante de um trabalho antigo que ali foi depositado para encanar a água até ao cubo do moinho ruinoso do Ti Alfredo.

Este sentir não é para todos, é apenas para aqueles que sempre cresceram com os rios e que deles lamberam nas margens milenares que o tempo escavou a água a escorrer por entre os dedos das mãos.

Um rio antigo convive com os deuses antigos. E quem sempre com um rio conviveu sente o real significado das religiões.

Um rio não tem explicação. Ou se sente, ou não se sente. E se me dizem que vão adulterar o Tua eu fico quieto e triste a senti-lo inteiro enquanto o tempo escorre entre o fraguedo para o matar na foz.

Não é preciso matemática nem argumentos da economia e da política para defender um rio, não são precisos argumentos da linguagem percentual. A beleza e a paisagem não se constroem num dia. E para mim este é o verdadeiro argumento.

E depois, como diz o poeta, um rio, um verdadeiro rio, um rio que se molda a si próprio “não faz pensar em nada. Quem está ao pé dele está só ao pé dele”.



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